segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Morre Eric Hobsbawm, um dos maiores historiadores do século 20


Um dos mais influentes historiadores do século 20, o britânico Eric Hobsbawm morreu nesta segunda-feira em Londres aos 95 anos, confirmaram familiares.


Em entrevista à imprensa, a filha de Hobsbawn, Julia, disse que seu pai morreu no início da manhã no Royal Free Hospital, onde ele se tratava de uma pneumonia.


A reputação do historiador deve-se, principalmente, a quatro obras escritas por ele, entre elas "Era dos Extremos: o Breve Século 20: 1914 - 1991", livro que foi traduzido em 40 línguas."Sua ausência será imensamente sentida não só por sua esposa de mais de 50 anos, Marlene, por seus três filhos, sete netos e bisnetos, mas também por muitos leitores e estudantes ao redor do mundo", informou um comunicado da família.

De família judia, Hobsbawm nasceu na cidade de Alexandria, no Egito, em 1917, o mesmo ano da Revolução Russa, que representou a derrocada do czarismo e o início do comunismo no país.

Não por coincidência, a vida do historiador e seus trabalhos foram moldados dentro de um compromisso duradouro com o socialismo radical.

O pai de Hobsbawm, o britânico Leopold Percy, e sua mãe, a austríaca Nelly Grün, mudaram-se para Viena, na Áustria, quando o historiador tinha dois anos e, logo depois, para Berlim, na Alemanha.

Hobsbawm aderiu ao Partido Comunista aos 14 anos, após a morte precoce de seus pais. Na ocasião, ele foi morar com seu tio.

Em 1933, com o início da ascensão de Hitler na Alemanha, ele e seu tio mudaram-se para Londres, na Inglaterra. Após obter um PhD da Universidade de Cambridge, tornou-se professor no Birkbeck College em 1947 e, um ano depois, publicou o primeiro de seus mais de 30 livros.

Hobsbawm foi casado duas vezes e teve três filhos, Julia, Andy e Joshua.

Na década de 80, Hobsbawm comentou sobre sua fuga da Alemanha. "Qualquer um que viu a ascensão de Hitler em primeira mão não poderia ter sido ajudado, mas moldado por isso, politicamente. Esse garoto ainda está aqui dentro em algum lugar - e sempre estará".
Obra

Entre as obras mais conhecidas de Hobsbawm, estão os três volumes sobre a história do século 19 e "Era dos Extremos", que cobriu oito décadas da Segunda Guerra Mundial ao colapso da União Soviética.

Já como presidente do Birkbeck College, ele publicou seu último livro, "Como mudar o mundo - Marx e o marxismo 1840-2011", no ano passado.

O historiador afirmou que ele tinha vivido "no século mais extraordinário e terrível da história humana".

Marxista inveterado, ele reconheceu a derrocada do comunismo no século 20, mas afirmou não ter desistido de seus ideais esquerdistas.

Em abril deste ano, Hobsbawm disse ao colega historiador Simon Schama que ele gostaria de ser lembrado como "alguém que não apenas manteve a bandeira tremulando, mas quem mostrou que ao balançá-la pode alcançar alguma coisa, ao menos por meio de bons livros".

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

HISTÓRIAS DE JOAQUINAS: MULHERES, ESCRAVIDÃO E LIBERDADE (BRASIL, AMAZONAS: SÉC. XIX)

Este tópico crio para felicitar um dos colegas do Mestrado de História da UFAM, Ygor Olinto que conseguiu escrever um belíssimo artigo em uma revista reconhecida na área dos estudos a respeito de escravidão e africanidade. Boa leitura no link abaixo.

http://www.afroasia.ufba.br/pdf/AA_46_YCavalcantePMSampaio.pdf

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

HIP HOP NA MALOCA DOS MANÁOS: QUATRO CABEÇAS DE UMA HIDRA URBANA*



RESUMO

Este artigo tem por objetivo principal resgatar a história recente do hip hop organizado na cidade de Manaus, capital do Estado do Amazonas, através da trajetória de quatro de seus personagens. Para tanto, coletei os depoimentos destes fundadores e expoentes do que chamamos M.H.M. (Movimento Hip hop Manaus). Com uma escrita didática, represento esta cultura gestada, criada e desenvolvida nas ruas como uma Hidra Urbana, pela sua capacidade de renovação constante e enfrentamento dos problemas sociais das periferias brasileiras e que utilizou os espaços escolares para sobreviver em Manaus.

PALAVRAS-CHAVES

Movimento Hip hop, Cultura de rua, Cidade de Manaus.




Quando a Hidra emergiu dos pântanos e enfrentou Hércules



A ideia que permeia o texto surgiu através da discussão dos escritos do historiador paraense Flávio dos Santos Gomes . O pesquisador ao discutir a resistência dos escravos negros à opressão e a busca em diferentes formas de enfrentamentos e que deixaram uma lição valorosa na direção da liberdade. Os quilombos brasileiros foram entendidos como Hidras. Enquanto as autoridades imaginavam terem destruído estes refúgios, eles ressurgiam mais fortificados e assustadores. Neste sentido, também utilizo a metáfora da Hidra dos pântanos de Lerna, figura monstruosa com forma de cachorro e cabeças de cobra em longos pescoços que enfrentou Hércules em um de seus Doze Trabalhos ordenados por Eristeu e descritos na mitologia grega. Heraclés, a quem os povos latinos chamavam de Hércules, foi o filho do deus Zeus com uma princesa de Tebas chamada Alcmene. A cada investida do semideus sobre a criatura, uma cabeça era esmagada ou decepada, rapidamente outra renascia do corte mais feroz e venenosa.

Aqui retratamos cada cabeça da Hidra como um elemento que compõe o hip hop: DJ, Grafite, Break e o Rap.

Neste sentido tomei posse da idéia da refrega mitológica entre a Hidra e o semideus para transformar o monstro na representação da contradição, do destoante. O hip hop como parte integrante da cultura negra americana e hoje um fenômeno, enfrenta uma cultura poderosa, alicerçado em uma economia impiedosa, preconceituosa, discriminatória e que não cansa em utilizar todos os expedientes legais ou não para calar as vozes discordantes dos menos favorecidos e excluídos.

A Hidra surge no asfalto

Nos Estados Unidos da América da primeira metade do século XX era comum em muitas cidades ver placas de aviso No Colored Men (proibido para negros) em estabelecimentos comerciais e serviços públicos, pois a segregação racial em muitos Estados era legalizada. Portas para a entrada e saída dos negros, banheiros, bebedouros só para o uso da população afro-americana na autoproclamada maior democracia mundial.

Várias vozes levantaram-se para denunciar e enfrentar o preconceito racial, a proibição de exercer o voto, os inúmeros espancamentos, as prisões arbitrárias, o desrespeito e assassinatos dos chamados homens e mulheres de cor. Apesar da abolição dos escravos ter acontecido em 1865, os negros ainda deveriam ficar na parte de trás dos ônibus e sempre que necessário dar o assento aos brancos e viajar em pé o restante do percurso.

No dia 1º de dezembro de 1955, Rosa Louise MacCauley, militante da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP em inglês) conhecida como Rosa Parks negou-se a levantar para um homem branco e por isto foi presa, mas tornou-se um símbolo da luta antissegregacionista americana. Começava em Montgomery no Alabama um boicote contra os ônibus que durou 381 dias e o caso repercutiu por todo o país. A partir deste episódio da costureira Rosa Parks entrou em cena o ainda desconhecido líder religioso Martin Luther King Jr.

O pastor da Igreja Batista Martin Luther King Jr. em seus pronunciamentos deixou sua luta pelos Direitos Civis dos negros e da população pobre defendendo a não-violência. Pregava a desobediência civil sem atos violentos contra a discriminação racial, claramente influenciado pelos preceitos de Mahatma Gandhi, recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1964.

Malcolm Little cresceu em um gueto e em meio à marginalidade viu seu pai ser assassinado e sua mãe apresentar problemas psicológicos que a levou ao sanatório. Iniciava ali uma carreira no crime que o conduziu ao cárcere. Durante sua estada no presídio conheceu o islamismo através de Elijah Muhammad e entrou para a história como Malcolm X, tornando-se um dos mais importantes representantes da identidade negra estadunidense. Ao contrário do reverendo King que defendia a resistência pacífica, X pregava a independência econômica, política em prol de um Estado negro autônomo e a separação das raças.

No meio de total exclusão cultural e econômica, falta de autoestima, surgiu o Partido dos Panteras-Negras para Autodefesa comandado por Huey Newton e Bobby Seale. Em 1966 começaram suas atividades, orientados por algumas idéias políticas de Mao Tsé Tung. Na realidade não se tratava de um partido político comum e sim um grupo de protesto contra violência e discriminação por parte da população branca.

Outros Panteras Negras tiveram uma participação fundamental no movimento Black Power (Poder Negro) como Geronimo Pratt, Billy Garland, Mark Clark, Harriet Tubman, Mutulu Shakur, Afeni Shakur (mãe do rapper Tupac Shakur assassinado em Las Vegas logo após a luta de Mike Tyson e Bruce Seldon no ano de 1996) e Fred Hampton que disse a célebre frase que marcou o espírito da época: “Você pode prender um revolucionário, mas não pode prender a revolução”.

Além disto, os movimentos pacifistas estavam em ebulição e em todos os lugares bradava-se a insatisfação contra a Guerra do Vietnã.

O grande lutador de boxe Muhammad Ali foi um das centenas de jovens que se negaram a partir para o combate bélico nas terras asiáticas. Apesar das retaliações governamentais continuou sua vitoriosa carreira. O pugilista olímpico foi considerado o “Esportista do Século” pela revista americana Sports Illustrated em 1999.

Não podemos deixar de entender que este período tão conturbado é explicado em parte pela chamada Guerra Fria, ou seja, a disputa ideológica e a corrida militar e armamentista em torno da hegemonia do poder mundial entre os Estados Unidos (representando o sistema capitalista) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (defensora da alternativa comunista) que iniciou no final da II Guerra Mundial e se prolongou até 1989 com a queda do Muro de Berlim na Alemanha e com a derrocada da URSS em 1991.

Em se tratando do cenário musical, a soul music e a funk music fazia balançar e se transformou na trilha sonora das lutas mais efervescentes e trouxe um novo comportamento para os negros do E.U.A e que se espalhou para todos os cantos do mundo, só sendo suplantado pelo fenômeno da música das discotecas.

No final da década de 1970 o fenômeno das gangues juvenis tomava conta das periferias e bairros pobres da cidade de Nova York nos Estados Unidos. Nestes aglomerados urbanos onde o grande número de negros, migrantes italianos, alemães, irlandeses e sujeitos oriundos de países latinos, as péssimas condições de vida, a crise da habitação, a precariedade dos serviços públicos, a desigual distribuição de renda tornaram-se o pólvora perfeita para a explosão de uma criminalidade generalizada.

Nestas circunstâncias e na tentativa de diminuir as estatísticas criminais destas regiões e repensar a questão negra dentro de um dos países mais racistas do planeta entra em cena o hip hop.


Hip hop é o movimento sócio-cultural surgido nos guetos que consiste em quatro subgrupos ou Elementos , baseados principalmente na criatividade de seus praticantes. Estes elementos são:

DJ é o músico que utiliza as pick up´s (par de toca-discos) para criar sons e ritmos para animar as festas.


Grafite representa a arte plástica. É a expressão gráfica espalhada pelas paredes e muros da cidade utilizando a tinta spray.


M.C. (Master of Ceremony) em uma tradução livre seria o Mestre de Cerimônias, mas alguns também utilizam o termo Mic Controller (Controlador do Microfone), ele ou ela representam o canto, a voz e as mensagens do rap.


B. Boy (Garoto do break) e B. Girl (Garota do break) representantes da dança e seus principais estilos são o poppin, o lockin e b. boying.

As quatro cabeças da Hidra tomam as ruas de assalto

DJ - O hip hop tem em seu registro de nascimento a cidade de Nova York nos Estados Unidos. As palavras inglesas To hip (mexer os quadris) e To top (para cima) são utilizadas pela primeira vez pelo DJ Afrika Bambaataa em 1968 e com o tempo chegou ao termo Hip hop.


Kool Herc é considerado o “pai” do hip hop. Nascido em Kingston na Jamaica e migrando em 1967 aos doze anos de idade para a cidade de Nova York. Na mala de imigrante trouxe um certo conhecimento muito difundido em sua terra natal. O sound system (sistema de som), aparelhagem de som com alto-falantes muito potentes ligados na rua e que serviam de entretenimento musical dos guetos nova-iorquinos. Nestas block parties (festas que aconteciam nos blocos de apartamentos abandonados) surgia assim, o embrião daquilo que anos mais tarde seria denominado de cultura hip hop.


O também DJ GrandMaster Flash criou diversos recursos musicais e sonoros nos toca- discos. Mas a maior contribuição deste talentoso produtor musical junto com o The Furious Five foi um dos maiores sucessos da música em todo o circuito do hip hop, a canção The Message.

GRAFITE - Na década de 1980 do século XX, artistas vindos das ruas ganharam bastante notoriedade como Jean Michel Basquiat e Keith Herring. Seus trabalhos foram expostos em grandes galerias pelo mundo e ainda hoje são lembrados pela qualidade e criatividade de suas obras.


A palavra Grafite vem do termo italiano Graffito que significa inscrição em muros. O grafite começou com os tag’s, que são assinaturas muito utilizadas pelas gangues como código de demarcação de espaços dentro do gueto. O grafite desenvolveu-se juntamente com o hip hop e é um dos elementos mais controversos do hip hop. A necessidade de mostrar suas idéias fez do espaço urbano a grande tela para as manifestações da arte criada com rolinhos de pintura e tinta spray, por que no grafite as paredes falam.

RAP - Sigla das palavras inglesas Rhythm and Poetry (Ritmo e Poesia) é a música predileta dos militantes e admiradores do movimento hip hop. O rap nasceu na Jamaica e tem como características mais relevantes suas batidas pesadas, aceleradas e as mensagens que vêm em forma de discursos organizados em rimas.


As festas dançantes e a diversão foram muito decantadas, mas paulatinamente este espírito deu lugar a denúncia das mazelas econômicas, as desigualdades e injustiças sociais, as arbitrariedades da polícia e o preconceito racial eram os temas prediletos dos MC´s. Na década de 1980 diversos cantores e grupos de Rap surgiram e alguns se tornaram verdadeiros expoentes deste gênero musical. Podemos citar alguns como Fat Boys, Kurtis Blow, Run-DMC, L.L. Cool J e Boogie Dowm Productions.


No Brasil as informações dão conta do surgimento das primeiras rimas sendo cantadas no Metrô São Bento e na Praça Roosevelt na cidade de São Paulo, isto no início dos anos 1980.

Os Racionais Mc´s são de longe a banda mais difundida em terras tupiniquins e que colecionam diversos sucessos.


O Estado do Rio de Janeiro apesar de uma tradição de funk, também conta com um grande rapper. MV Bill, nascido e criado na comunidade Cidade de Deus tem uma carreira respeitada e ganhou vários prêmios, inclusive reconhecido pela UNICEF e UNESCO por sua militância e importância política.


Outra capital que desponta no cenário do hip hop nacional é Brasília. E três destes expoentes são o DJ Raffa (integrou os grupos Magrellos e Baseados nas Ruas), verdadeiro ícone do rap do Distrito Federal, o rapper X que junto ao DJ Jamaika formaram a banda Câmbio Negro e o poeta GOG (siglas de Genival Oliveira Gonçalves).

BREAK DANCE - Já na década de 1960 a música negra tinha um papel significativo nas periferias norte-americanas e a dança sempre foi um aspecto diferenciado deste momento, só lembrar das performances enlouquecidas e enlouquecedoras de James Brown.

Na década seguinte o estilo b. boying desenvolvido em Nova York, o popping dançado nas ruas de Los Angeles e o locking executado na cidade de Fresno também na Califórnia formou o que chamamos genericamente de break dance. Juntando influências da soul music, da funk music com os filmes de kung-fu, dança indiana, acrobacias da ginástica artística, mímicas, influências africanas e no Brasil, a inclusão de movimentos oriundos da Capoeira colaborou com a qualidade das performances dos breakdancers (dançarinos de break). A cultura das periferias como o Harlen, Brooklyn e South Bronx balançavam ao som de Tour the France de Kraftwerk, Rockit de Herbie Hancock, Street people de Fire Fox, Boogie Down do cantor Al Jarreau, Planet Rock de Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force, Eletric Kingdom de Twilight 22 e vários outros sucessos.

A Hidra Urbana desembarca na maloca

Nos finais de semana quem passeava ou apenas transitava pelas principais praças de Manaus deparava-se com jovens dançarinos imitando um robô, transmitindo a ilusão de uma descarga de choque elétrico ou caminhando como os astronautas na lua. Eram os primeiros passos da dança break em terras manauaras. A onda da dança break virou febre em várias capitais brasileiras e Manaus não foi diferente. A juventude influenciada pelos vídeos e filmes estrangeiros, mesmo de uma forma amadora e improvisada começou a praticar os primeiros passos desta nova forma de expressão corporal.


As casas noturnas de meados da década de 1980 como Bancrevea Clube e Cheik Clube, transformaram-se nos pontos de encontro dessa galera praticante da dança. A Praça da Saudade, Praça da Matriz também foram os espaços prediletos para as apresentações e disputas entre o b. boys manauaras.


Apesar da falta de conhecimento quase total da cultura hip hop por parte da maioria dos praticantes do breakdance e o break ser o elemento mais difundido entre a garotada da época, a juventude manauara iniciava um capítulo importante da história cultural da cidade banhada pelo Rio Negro.


Manuel Frank Silva Matos conheceu o hip hop aos 14 anos e logo foi tomado pela cultura das ruas. Nascido e criado na zona leste de Manaus foi DJ e rapper da banda {C}rime Organizado em conjunto de Ney (o autor) e DJ Afrika (Kleber Vieira). FK é acadêmico de Contabilidade e nos diz como foram seus primeiros contatos com a cultura no início da década de 1990:

(...) e o rap foi contagiando com as verdades que eram ditas né mano, com o que acontecia no nosso cotidiano. Pânico na zona sul (música dos Racionais Mc’s) ele vinha retratando uma rotina nossa, já ali na periferia, com problemas sociais encontrados, essa foi minha infância e eu falo até que, eu tinha quatorze anos de idade, eu carregava água no patinete para atender as necessidades da minha mãe, hoje com 33 anos de idade a gente ainda carrega água lá. Inclusive esse fato de falta de água no bairro de São José, inclusive já colocou três vereadores no poder e até hoje coloca e é impressionante é o quanto que a minha área não desenvolveu socialmente. E eu ainda vejo as mesmas coisas, pouca mudança, a própria juventude, a busca pelo novo conhecimento.


FK reconhece a importância da cultura hip hop para a transformação social do sujeito.

E o hip hop pra mim naquela época foi uma grande força, tipo assim, eu consegui ouvindo rap, no hip hop viver uma realidade sem ter visto, a experiência, eu não preciso viver o mundo das drogas pra mim ter essa experiência, o rap já mim transmitia isso e com isso já consegui mim afastar e consegui enxergar um novo horizonte, um novo rumo a seguir, comprar livros, procurar uma profissão, um trabalho. Seguir uma trajetória certa e não parar em uma penitenciária.

Com as posições sérias que sempre foram sua principal característica, FK relata a necessidade de organizar o movimento em Manaus.

Em 1994 houve a explosão do hip hop aqui nas mídias, nas grandes camadas, tinha um grupo chamado... tinha o Gabriel, O Pensador e foi surgindo outros grupos que cantavam rap na mídia. Aí o rap começou a pegar moda até e a gente também aqui, já tinha uma grande massa que curtia, tinha o pessoal do break, tinha o pessoal que tava ouvindo rap e tal e precisava ter uma organização, precisava ajeitar isso aí, a casa precisava se organizar (...) Uma entrevista do MH2O, movimento do Ceará e aí surgiu a ideia de criar (...) Vamos criar o nosso e nessa entrevista eles falavam de organização, chegar como eles conseguiam o apoio da prefeitura, da parte cultural, como eles conseguiam o apoio dos empresários e tal e vamos criar a nossa, aí o Ney, eu e o Guila e chegamos com um cara que na época, que influencia, o Maiko e vamos levar a ideia e difundimos e agora vai ser M.H.M. E aí o M.H.M começou a chamar os grupos, ao invés de a gente ficar naquelas batalhas de b.boy, briga e tal, a gente passou a fazer diferente, vamos trabalhar para divulgar esse movimento.

Em 1998 {C}rime Organizado gravou um pequeno trabalho denominado Diálogos de Chumbo que continha seis músicas e apresentava letras que marcaram pela agressividade nas denúncias das mazelas sociais das periferias manauaras.
Com um curriculum que ultrapassa vinte anos de arte de rua, Rogério Arab, 37 anos é consagrado como uma figura muito importante no M.H.M. Arab, como assina seus trabalhos, começou sua jornada no movimento hip hop em 1999, através do convite do b. boy Art. Segundo ele, “a partir daí comecei um trabalho é, ligado ao grafite artístico, socialmente também, com oficinas, palestras e tal e nunca deixamos de lado o trabalho cultural né, o tradicional do grafite que são as pinturas artísticas que estão espalhadas pela cidade”.


Arab relata seus primeiros passos dentro dessa vertente do movimento hip hop e o início de sua carreira como artista reconhecido no grafite. Segundo ele:

A minha história com o grafite, com a escrita urbana ela vem de 1988 precisamente 1989, através da pichação por que na capital onde eu nasci e morei durante a década de 1980 era Belém e a cultura da pichação sempre foi muito forte e na época que eu comecei a me entender na adolescência já existia essa cultura lá, já era uma coisa que dominava praticamente todos os bairros é, então tinha tios, primos, colegas que já tinham sido pichadores e tavam envolvidos no movimento, então era uma influência muito forte, muito próximo do que a gente via.

Explica que a arte das latas de spray começou no Rio de Janeiro na década de 1970 e espalhou-se pelo Brasil inteiro e deixa claro que pichação também é grafite. No Brasil existe uma tentativa de marginalizar o picho e a defesa do grafite.
Arab é hoje um dos mais respeitados artistas plásticos das paredes e muros de Manaus. Sua história começa na cidade de Belém no Pará. Começou como pichador e hoje ministra aulas sobre a arte do grafite, principalmente em escolas públicas localizadas nas periferias. E não é difícil encontrar seus traços expostos pelos muros da metrópole encravada na hinterlândia amazônica e banhada pelas águas do Rio Negro. Arab faz questão de deixar claro que as principais diferenças entre o ato de pichar e a grafitagem e é um dos maiores defensores do grafismo como arte urbana.

(...) aqui separam o grafite da pichação mas lá na Europa, nos Estados unidos ela é a mesma coisa tanto em questão visual como em questão de leis(...) a idéia que o grafite é arte e a pichação é vandalismo mas no fundo a gente sabe que é tudo a mesma coisa, a diferença é estética. No grafite você vê desenhos, técnicas, cores e vários estilos e na pichação você vê apenas traços, letras, caligrafismo, mas também existe estilo, certa técnica pra fazer pichação também.


Silvio de Souza e Silva, 38 anos, industriário, amazonense do município de Autazes é o verdadeiro nome de S. Preto. S. Preto chegou a Manaus no ano de 1989 para trabalhar e não demorou em ser fisgado pelas coreografias da street dance (dança de rua).

(...) sempre me identifiquei com o negócio do Soul, da dança, então eu fui vendo isso. Então eu vim pra cá com 15 anos para Manaus e não tinha muita opção aí, é Cheik Clube não tinha jeito, Miami (Bass) , aquele negócio todo, os cara dançando break. Lá eu conheci o Guilherme (Guila) e o Maiko né e formamos um grupo de dança chamado DMD.

S. Preto narra os primeiros contatos com o rap nacional no ano de 1994. “O rap falado, a gente vinha conhecendo Thaíde, Racionais essas coisas todas aí, pessoal muito importante no movimento, e aqui a gente formou o DMD dança e depois veio o canto, cantar, rimar essa coisa toda. Em 2000 veio os Cabanos (...)”. Hoje S. Preto integra uma das maiores bandas de rap do Estado, os Cabanos. Os Cabanos gravaram o cd A idéia não morre em 2008 com os rapper’s Guila, Nego Juca, Nego Elio e o DJ Marcos Tubarão. No início da década de 1990 S. Preto relata a falta de informação e a confusão sobre os elementos do hip hop.

Quando a gente começou, tu lembra que hip hop a gente falava rap e hoje, o hip hop é o rap, é o b.boy, o DJ né, é o cara que tá envolvido aí. Se lembra quando a gente fazia o lado social, quando a gente fez lá na Mamãe Margarida aquela festa para arrecadar alimentos.

Isto também demonstra a preocupação social que deu origem ao movimento organizado na tentativa de contribuir com instituições necessitadas. Atualmente o rapper S. Preto reside em Boa Vista, capital do Estado de Roraima.


Marcos da Silva, paranaense, 41 anos, o DJ Marcos Tubarão iniciou sua carreira como dançarino de break nos meados dos anos oitenta em grupo chamado Irmãos Cobra. “a gente não sabia muito o que era hip hop” e a informação veio através da sétima arte, “Breakdance , o Beat Street e Wild Style , então esses três filmes que projetou a dança por meio do cinema”. Mas ressalta que “no Brasil mesmo teve aquele estouro do break, a partir da novela, uma novela chamada Partido Alto, uma novela de 1984 que passava na TV Globo, a própria abertura trazia uma coreografia de break”. Seu papel foi fundamental para criação do movimento organizado em 1994 em conjunto com Maiko na produção dos eventos do M.H.M.


Segundo Tubarão o esfriamento da onda break fez com que seus seguidores procurassem novos espaços para seus encontros e suas demonstrações, além do mais a chegada da House Music modificou o cenário musical da época, pois segundo Tubarão:

(...) as casas noturnas tipo Cheik, Bancrevea, começou a encher muito, os salões e os donos de festas começou a ganhar muito dinheiro e os cara simplesmente mandava fechar, fechar as rodas de break na porrada mesmo, não abria a roda. Por que a roda aberta já era um público menor, menos dinheiro na parada. Os mesmos seguranças que abriam as rodas nos anos 1980 eram os que fechavam na década de 1990. Por isso aí, por falta de espaço, por busca de originalidade, mais um som original e também por receber os primeiros grupos de rap, já ta no mesmo contexto de evento, grupo de rap, grupo de b.boy e tal, DJ e tal e aí surge o M.H.M., a proposta de M.H.M.


A delimitação dos lugares fez com que os primeiros bailes de hip hop fossem direcionados para áreas mais distantes do centro da cidade, principalmente leste, oeste e norte. Escolas públicas, associações de moradores, clubes menores, quadras poliesportivas viraram palco para os primeiros encontros do M. H. M. O anseio de mostrar a arte reuniu diversos jovens em torno da sigla. A Escola Municipal Waldir Garcia no bairro de São Geraldo foi um dos espaços mais frequentados pela turma do hip hop nos primeiros anos e recebeu a “carinhosa” alcunha de Capão Redondo . O espaço escolar foi bastante utilizado pelos hip hopper’s, diversos bailes foram promovidos na quadra da Escola Municipal Alfredo Linhares no bairro de São José Operário I. Além de promover as ideias do hip hop, ocupar o espaço escolar foi decisivo no processo educacional de diversos discentes e uma maior aproximação com a comunidade escolar e moradora destas regiões.


Tubarão relata que a idéia para organizar o movimento “veio da zona leste, lá do {C}rime Organizado, do grupo DMD, juntando a turma da zona oeste, que era o grupo do Lúcio” trazendo “a intenção de organizar os grupos, criar mais espaços, uma coisa mais original e não empurrar o som goela abaixo e dizer que serve para dançar break.”


O disque-jóquei considera a data de 1º de abril de 1994 o marco inicial para a nomenclatura.


O hip hop assim como a Hidra teima em não morrer, mesmo recebendo golpes quase mortais, não deixa de resistir. Como cultura que nasceu nos becos, nas ruas, nas vielas, nas favelas e baseia-se na criatividade de seus seguidores que demonstram toda sua capacidade de transformação e adequação às mudanças dos novos dias. Mesmo sabendo que o futuro apresenta-se como uma incógnita, há resistência.


No entanto, O M.H.M. em seus quase vinte anos de atividades não pára e a Hidra Urbana continua o seu combate e os campos de batalha são as “quebradas” de todo o Brasil.

Conclusão

Milito na cultura hip hop desde os primeiros anos de 1990 e colaborei com a criação do movimento organizado na cidade de Manaus e isto é motivo de muito orgulho. Rever “parceiros”, entrevistar, trocar experiências e relembrar histórias divertidas que estavam guardadas em nossas memórias foi muito gratificante.


Preciso deixar claro que não esgotei e não esgotarei este tema. Este é apenas um pequeno esforço neste resgate histórico de um movimento atual, vivo e que envolve centenas de jovens nas periferias da metrópole dos Manaós. Paz para as ruas!

*Sidney Barata de Aguiar - Professor da rede pública de educação do Estado do Amazonas e do município de Manaus. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Secretário de Organização do SINTEAM. Contato: aguiar_sidney@yahoo.com.br

I - O Historicismo: realismo e relativismo no século XIX.

O Século XIX é denominado por alguns pensadores como o "século da História" em clara e franca oposição ao século XVIII que seria o século das luzes e da filosofia. Durante os oitocentos surgem três grandes paradigmas historiográficos e que são fundamentais para o desenvolvimento da História enquanto ciência: Positivismo, que já abordamos, Historicismo, que iremos iniciar nossas análises a partir deste texto e o Materialismo Histórico que abordaremos em momento oportuno.

Para José D’assunção Barros (2011, p. 64) o século XIX pode ser caracterizado pelo debate que se realizou em torno da História: a oposição entre objetividade e subjetividade. Décadas de confronto entre positivismo e historicismo marcam o século XIX, “o século da História”, além é claro do surgimento de uma nova teoria da História que ganharia força no século XX: o Materialismo Histórico. (2011, p. 64).

A já constatada oposição entre positivismo e historicismo de acordo com Barros se dá em três níveis distintos: o primeiro relacionado a questão da dicotomia objetividade/subjetividade, no que se relaciona a possibilidade ou não da História encontrar “leis gerais” para todas as sociedades humanas, o segundo ponto relacionado ao padrão metodológico a ser adotado como mais adequado a História (o modelo das ciências naturais ou um padrão específico das ciências humanas?) e por último e não menos importante a posição do historiador face ao conhecimento que produz (neutro, subjetivo ou engajado na transformação social?) (Barros, 2011, p. 64-5).

Importante se faz destacar que enquanto paradigma o positivismo já estava praticamente pronto desde meados do século XIX, graças a influência significativa da ilustração, ou seja, o positivismo herda traços e pressupostos iluministas, apesar da inversão que muitas vezes ocorre em sua aplicação social levando o primeiro a um certo conservadorismo.

O historicismo, entretanto constrói seu paradigma durante o século XIX a partir, num primeiro momento de influências isoladas (autores como Herder e Vico) além de determinadas contribuições de pesquisadores vinculados a teologia e filologia. Para os primeiros historicistas, nada está pronto e conforme atesta José D’Assunção Barros: “O Historicismo ainda precisará construir a si mesmo, estendendo contribuições diversas em um arco que irá de Ranke – ainda preocupado em ‘narrar os fatos tal como eles aconteceram’ – até Droysen e Dilthey, historicistas relativistas que já se preocupam e trazer à historiografia uma reflexão sobre a subjetividade do próprio sujeito que constrói a história (...)” (2011, p.67)

O historicismo se desenvolve na Alemanha e se expande para outros países europeus e para as Américas no contexto direto da afirmação dos Estados Nacionais do século XIX. Se presta de acordo com José Barros, a representar o conservadorismo da burguesia industrial encastelados na burocracia estatal nascedoura. Duas grandes questões são postas aos historicistas alemães: realizar a unificação de um vasto território e o encaminhamento de uma modernização sem riscos revolucionários.

Barros afirma que a escola historicista alemã se apresente como sustentáculo das estruturas da Monarquia Prussiana e que esta foi a financiadora do projeto nacional historicista. (2011, p. 108).

O autor esclarece ainda o contexto do surgimento do historicismo alemão: “De modo geral, no contexto da Restauração e em virtude de viscerais oposições entre alemães e franceses, os historiadores da Escola Histórica Alemã eram críticos da Revolução Francesa, e ao lado disto não desprezavam as épocas anteriores, inclusive a Idade Média, como haviam feito os iluministas do século XVIII” (Barros, 2011, p. 108)

Para Barros: “Herder ou Vico, que já estavam no século XVIII atentos à relatividade das sociedades humanas contra a tendência predominante na intelectualidade da época, o iluminismo, que tendia a pensar a Natureza Universal do Homem e uma história ‘universalizante’, e não ‘particularmente’. (Barros, 2011, p. 65).

Este será uma das maiores oposições entre positivismo e historicismo que veremos no início do século XIX, pelo menos na fase “realista” do historicismo alemão. Positivismo e historicismo para Barros foram frutos de uma necessidade de época representada pelo paradoxo de encaminhar uma modernização política que viabilizasse o desenvolvimento industrial que atendessem as exigências da burguesia e ao mesmo tempo preservar alguns privilégios sociais da nobreza. Entretanto esta necessidade em como gerou respostas diferentes. Para o autor o positivismo busca a ideia do universalismo e o historicismo alemão buscava o consenso social a partir da ideia do nacionalismo.

Barros afirma: “(...) o Particularismo Histórico proposto pelo Historicismo Alemão logo se oporá menos ou mais radicalmente ao Universalismo Positivista. De igual maneira, ao ‘homem universal’ que um dia fora objeto de estudo dos iluministas, e que agora reivindicado como conceito central pelos positivistas do século XIX, o Historicismo opunha o ‘indivíduo concreto’, particular, histórico e sujeito à finitude.” (2011, p. 110)



(Continua)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Positivismo: Primeiro grande paradigma da História


Todo estudante de história, seja universitário ou do ensino de base já se deparou com este bom e velho paradigma (do século XIX) ao qual muitos denominam de positivismo, de acordo com a definição do seu fundador August Comte.

Durante a faculdade o maior temor dos acadêmicos é justamente o estudo de teoria. Alguns a classificam como massante, outras de difícil apreensão. Para mim, concordando com a assertiva do professor Mauro Cézar Coelho, Teoria (ele se referia a disciplina em uma de suas palestras sobre Amazônia Colonial) é a melhor parte da História, pois é a partir do estudo da Teoria que expressamos nossa visão de mundo. 

Sabias palavras do mestre já que Teoria em seu significado original está vinculado a "ver" e na antiguidade siginificava "visão de mundo".

O positivismo deixou sua marca profunda na História, que nascia como ciência no século XIX, influenciada grandemente pelo cientificismo da época. As chamadas ciências sociais utilizando-se de aportes teóricos do iluminismo acabaram determinando uma virada radical no "fazer história" do século XIX.

Antes a História em si, durante o período moderno, servia como justificativa para uma história nacional, quase apologética dos feitos e da linhagem de nobres e reis, ou em período anterior sendo vista apenas como ramo menor da literatura.

O status de cientificidade da História ganha força a partir do momento que o racionalismo científico é utilizado pelos positivistas dentro das primeiras pesquisas historiográficas. Portanto apesar de hoje bastante criticado o paradigma positivista tem seu mérito: ser o primeiro grande paradigma (junto com o historicismo) durante o século XIX.

Mas qual a grande influência do positivismo até aquele momento? De acordo com José D'Assunção Barros o positivismo é bastante influenciado pelo movimento filosófico iluminista, onde destaca-se a visão universalista de mundo. O racionalismo construído a partir da experimentação somava-se agora a ideia clara de busca de leis gerais que regulavam a natureza e portanto determinariam os acontecimentos, cabendo ao historiador apenas a busca destas leis gerais.

O positivismos portanto pauta-se pelo racionalismo, por uma busca da verdade absoluta em virtude da visão de que a história é regida por leis gerais e claro uma objetividade que se baseava na própria noção de fonte histórica: a fonte oficial era a garantia da veracidade do que ela descrevia.

A história que se pauta pelo paradigma positivista é por assim dizer narrativa, política, pautada nos grandes feitos e nas datas, influenciou significativamente a história nacional e no Brasil teve seu destaque em virtude das pesquisas realizadas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundando pelo Imperador Dom Pedro II ainda no século XIX.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O Cinco de Setembro para o Amazonas



O Cinco de Setembro abre para o calendário escolar as atividades da chamada semana da Pátria. Os mais saudosos lembram dos tempos áureos onde as escolas públicas de nome e de peso organizavam seus desfiles cívicos. Tempos em que a “Educação Moral e Cívica” andava de mãos dadas a “Organização Social e Politica do Brasil”. A construção de uma identidade nacional passou a estar vinculada a glorificação de um passado glorioso, onde grandes heróis e datas cívicas eram comemoradas e lembradas por todos.

Mas o que se comemora neste cinco de setembro?

O cinco de setembro marca o início da autonomia para a então Comarca do Alto Amazonas. Administrativamente o que é hoje o Estado do Amazonas era apenas uma área subordinada a então Província do Grão-Pará. Com a Lei n. 582 de 5 de setembro de 1852 efetivou-se a separação da Comarca do Amazonas, que passou a se denominar Província do Amazonas, com autonomia política frente ao Grão-Pará. Ou seja, do ponto de vista político é o nosso “grito de independência”.


A data marca, do ponto de vista cultural, o início do processo de formação da própria identidade da sociedade amazonense, que oscilou durante a virada do fim do período colonial e a adesão à independência como um entreposto comercial da cidade de Belém, ou mero “sertão” onde se buscavam produtos tropicais e mão-de-obra indígena. Com a instalação da Província e a necessidade de se criar um aparelho estatal na região há o crescimento da cidade de Manaus, aumento da circulação de estrangeiros, além do início de um novo crescimento econômico, que o Amazonas havia experimentado no final do século XVIII.

A sociedade amazonense do século XIX era formada por uma imensa maioria de índios (em média mais de 60% da população, seguida bem de longe por tapuios, mestiços e uma minoria de negros escravos). A necessidade do controle do grande vale Amazônico, tanto em relação a navegação do Rio Amazonas, quanto do controle da mão-de-obra local, os índios, motivaram o Império a dar autonomia política para o Amazonas.

De acordo com o Professor Ribamar Bessa: “A criação da Província do Amazonas permitiu que a elite econômica local organizasse a exploração da mão-de-obra, formada fundamentalmente por índios.”

Era de suma importância para os grandes negociantes instalados na cidade da Barra (atual Manaus) o controle da mão-de-obra indígena. Como afirma o Professor Bessa:

“Em 1850, cerca de 60% da população recenseada do Amazonas era constituída por índios aldeados. (...). Se o índio não trabalhasse, ninguém comia no Amazonas e as atividades econômicas ficariam totalmente paralisadas.”

O Mundo do trabalho aparece ao lado de uma ideologia de controle e disciplina dos grupos étnicos propensos ao labor: índios, negros, mestiços e escravos. A noção de civilização passava, portanto pelo embranquecimento da população e claro pelo rígido controle da mão-de-obra, seja compulsória como no caso dos índios, seja escrava, como no caso dos negros, pardos e mulatos.

Os deputados da Assembleia Legislativa Provincial representavam a minoria branca e na terceira sessão da primeira Assembleia Legislativa provincial votam o primeiro projeto que demonstra o interesse das elites locais em relação a criação do novo aparelho estatal na região:


“Art. 1 - Fica livre a todo morador poder ir contratar a troca dos indígenas bravios com os principais das nações selvagens.

Art. 2 - Feita a troca, o individuo apresentar-se-á com os indígenas perante o Juiz de Paz mais vizinho para assinar um termo de educação por espaço de dez anos.

Art. 3 - Concluidos os dez anos, de que trata o artigo antecedente, poderá o índio ser aldeano.

Art. 4 - Impor-se-á a multa de 100 mil réis e 20 dias de prisão a todo solicitador de índios de casa de seus amos; os aliciados serão obrigados por qualquer autoridade judiciária ou militar a voltarem para casa dos referidos amos.”

Marchamos por quê no dia cinco de setembro? Comemoramos o que? A história como sabiamente alerta o historiador britânico Eric Hobsbawm serve para lembrar o que muitos gostariam de esquecer.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quem escreve a História II






Alguns esteriótipos vem a tona quando se fala da Amazônia. O primeiro deles em se tratando de história é justamente a noção de vazio demográfico que se implantou na região a partir do período colonial. Quando se trata da questão da construção de identidade recorre-se logo e apressadamente a figura do "caboclo" para definição do "tipo" regional. Nas palavras do Professor Balkar, uma simplificação grosseira.
Índios, missionários e colonos viviam que parece isolados, ora em aldeamentos de repartição ora em vilas dispersas pelo grande vale. O modelo deplantation não se efetivou na região, principalmente devido ao preço elevado dos escravos africanos e claro pela abundante oferta de mão-de-obra indígena.

Apesar disso, há sim indícios significativos tanto de uma presença de negros na região, que embora economicamente não tenham peso antes do chamado período pombalino, criaram estratégias de fuga, resistência e a formação de mocambos (como bem atesta Flávio Gomes, em seu artigo: Amostras Humanas...).
Qual o impacto desta relação tão próxima entre índios e negros no vale Amazônico? Uma área de fronteira, com a presença do branco colonizador, vigiando os espaços, controlando o ritmo do trabalho e impondo sua visão de mundo?
Para a historiografia o impacto se da na visão do "aculturamento", ou seja, índios e negros foram absorvidos pela cultura superior do colonizador branco. O silenciamento a respeito das relações híbridas entre estes grupos que ao contrário do que teimam em afirmar velhos e bons memorialistas, não viviam isolados no grande inferno verde que é a Amazônia.
Há que se pensar com maior cuidado a respeito de qual a identidade destes grupos que povoaram (ou despovoaram) a região. A miscigenação está longe de ser meramente biológica, ocorre de fato um hibridismo cultural, presente em determinadas fontes, sejam as oficiais, onde se recorre a classificações e rótulos típicos do século XIX para se classificar os trabalhadores "mulato, cafuzo, tapuio, preto". 

Os espaços sejam da cidade de Manaus que cresce junto com a formação da então Província do Amazonas a partir da década de 1850, são caminhos, ou talvez descaminhos, onde a presença cotidiana dos mestiços é inegável, está nos periódicos do século XIX, nas fontes oficiais dos relatórios dos Presidentes de Províncias ou nas fontes da igreja, nas listas de batismo e falecimento da cúria metropolitana.
Como vencer o rótulo de que a Amazônia é um grande vazio? de que a nossa identidade é basicamente "o caboclo" e suas variações (o ribeirinho, dentre outros?) A matriz indígena apesar de evidente é mascarada a partir do século XIX nas obras dos historiadores memorialistas, a matriz africana é silenciada devido sua "presença rarefeita". Há por trás destas ações uma ruptura com o passado da sociedade amazonense?
Afinal quem escreve a História?

Pela passagem do dia do Historiador



Uma homenagem aos amigos e amigas do blog e claro a todos os historiadores e historiadoras, um poema que me enviaram:



Historiador

Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.

Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'

A (in)segurança nas Escolas




Em reportagem recente (27/08/12) o jornal Diário do Amazonas afirmou que nove entre dez estudantes ouvidos pela reportagem afirmaram que já foram vítimas ou presenciaram roubos nas principais vidas do centro da cidade, nos horários de pico. Estamos falando de horários de pico, portanto de bastante movimentação e nas áreas centrais e principais vias da cidade. O que dizer das zonas mais afastadas da cidade?

No dia 28/08/12 o Jornal Acrítica noticiou que uma criança de seis anos de idade desapareceu da porta da escola Municipal Álvaro Botelho Maia, no bairro Cidade de Deus no dia 27/08/12.

A escola que era para ser um local seguro e apropriado para a aprendizagem agora é o espaço da violência e do medo, fruto da omissão da atual administração municipal que teima em negligenciar os apelos da comunidade por maior atenção aos alunos e professores.

Desde 2011, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) tomou decisão bastante controversa: retirar das escolas municipais os vigilantes. Qual o objetivo? Cortas gastos com pessoal. E a justificativa? Um novo sistema de monitoramento a partir de câmeras, capaz de suprir, o que já era solução paliativa: a presença (ou ausência) de segurança terceirizada nas escolas municipais.

Somadas as denúncias referentes ao atraso de mais de seis meses no repasse dos salários dos trabalhadores que prestavam o serviço de monitoramento nas escolas demonstra a completa negligência da atual administração com a segurança dos alunos e com o patrimônio público.

A dispensa dos vigilantes e o atraso nos salários foram amplamente noticiados pelos grandes meios de comunicação, entretanto o que ficou a margem da discussão foi a falta de segurança que passou a imperar tanto nas imediações quando no interior das escolas.

A tribuna popular da Câmara Municipal de Manaus foi palco das denúncias a respeito da indignação que os trabalhadores da categoria dos vigilantes que se sentiram traídos pela atual administração que havia se comprometido em instalar câmeras nas escolas como reforço da segurança dos alunos.

Mais de dois mil vigilantes foram retirados das escolas e após este fato perguntamo-nos qual a melhoria a respeito dos índices de violência ou do impacto positivo de tal medida tomada de maneira unilateral?

Entendemos que a administração pública deve zelar pelo maior patrimônio: as vidas humanas, principalmente de vidas das crianças. Nós professores, não somos contra as câmeras de monitoramento, porém a retirada de vigilantes das escolas é um prejuízo que está sendo pago pela própria sociedade, com o aumento constante de denúncias ao sindicato a respeito da crescente violência que vem tomando conta das escolas da cidade.

Nos posicionamos claramente a favor de funcionários capazes de proporcionar aos nossos alunos e alunas mais segurança e principalmente adequação destes trabalhadores as suas funções: a proteção a vida.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 22 de junho de 2011

MP-517: Os Tablets e o ataque aos Senadores do Amazonas




Neste mês de junho o governo brasileiro aprovou o Processo Produtivo Básico (PPB) para a fabricação dos Tablets em nosso país. Mas você pode se perguntar: e eu com isso? O que os tais Tablets tem haver com o Amazonas?

Em linguagem simples o Tablet é um computador em forma de prancheta. Dentre tantas outras coisas o governo a partir dos Ministérios de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, além do Ministério de Ciência e Tecnologia estabeleceram os critérios para a produção desta nova tecnologia no Brasil, incluindo aí o conteúdo nacional na fabricação dos Tablets.

Os Tablets a partir da publicação de uma medida provisória, receberam tratamento especial para sua fabricação. Isto significa benefícios fiscais em forma de lei, com a diminuição de alíquotas do PIS e COFINS por exemplo, a zero.

Como se enquadra em um “bem de informática” o bendito Tablet se encaixa na famosa lei nº 8.248 de 1991 que dispõe sobre o setor de informática no país. Esta lei instituiu incentivos fiscais para as empresas do segmento de informática instaladas fora da ZFM em destaque a alteração do chamado IPI (imposto sobre produtos industrializados).

Como já é de conhecimento público esta lei requentada durante o governo Fernando Henrique Cardoso, sob a égide de seu Sancho Pança, Ex-Senador Artur Virgilio Neto (aquele que chamou o ex-presidente Lula pro Pau, pai do deputado que mostrou as nádegas para uma autoridade em Fortaleza) afetou a lógica dos incentivos da ZFM. Voltemos ainda mais no tempo então.

O Decreto-lei que instituiu a ZFM estalebeceu incentivos para QUALQUER segmento industrial, resguardadas as características de natureza regional ou geográfica e não especificamente sob determinado setor ou determinados produtos. A ZFM portanto era e continua sendo uma exceção tributária em nosso país fruto da luta coletiva de investidores, trabalhadores e políticos que durante o governo FHC viviam um dilema: tinham um defensor (o nosso Chuck Norris Baré), mas não a garantia de continuidade do modelo Zona Franca (Só garantida no governo Lula).

A chamada lei de Informática é que está na raiz do problema enfrentado na atualidade. Como estabelecido por esta lei, estariam resguardados para o resto do Brasil, incentivos para produtos de informática (também concedidos para a Zona Franca), o que prejudicou significativamente em um primeiro momento competitividade do setor.

A inocente mídia, criticando duramente o governo e por extensão os Senadores do Amazonas, em especial Vanessa Grazziotin do PCdoB –AM afirmam que o incentivos fiscais a produção dos Tablets é a demonstração de que os senadores do Estados são subservientes ao governo.

Na raiz do problema está a lei de informática e a chamada guerra fiscal inaugurada desde os anos de abertura da economia realizadas durante a égide do neoliberalismo na década de 1990. A culpa do governo do PT na questão é a de não combater tal guerra fiscal, e por conta da própria conjuntura de pressão de múltiplos interesses não realizar uma profunda reforma tributária que ponha de vez na mesa como tratar os diferentes como iguais (em nosso caso como preservar o modelo de desenvolvimento da ZFM e amplia-lo para o restante da região). A culpa dos senadores do Amazonas e dos seus parlamentares, na minha opinião é o de serem parlamentares de uma região esquecida do ponto de vista do desenvolvimento econômico e social.

Querem esvaziar a discussão, jogá-la ao mais raso possível culpando Vanessa e Eduardo por um ataque ao modelo ZFM. Estamos em Guerra desde 1967, Passamos pela era Neoliberal, entretanto apesar de algumas batalhas vencidas e outras perdidas, ainda não chegamos ao final. Como diria o apóstolo Paulo, ainda não pudemos completar a carreira e guardar a nossa fé.

Quem são os culpados nessa história toda? Nossos parlamentares? O governo? O PT? Todos os anteriores?

Para pensar na fila encerro com Maquiavel, o “pai” da atual ciência política. Ele dizia: "(...) quem quiser comportar-se em todas as circunstâncias como homem bom vai ter que perecer entre tantos que não são bons.”

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Ditadura da Mídia por Altamiro Borges.


O livro do camarada Altamiro Borges A Ditadura da Mídia é diferente tanto na sua linguagem (simples e direta) quanto no seu conteúdo, que sob meu ponto de vista serve para desnudar o controle da grande mídia no Brasil e no Mundo. Apresenta um quadro paradoxal em relação aos meios de comunicação.

Lançado em 2009 pela editora Anita Garibaldi, pouco mais de 10 mil exemplares, esta sintética e poderosa obra (dividida em cinco capítulos e mais os anexos) transforma-se no instrumento atualizado para a compreensão do papel da mídia, historicamente em nosso país, bem como a forte contração do poder neste setor e os novos ventos da mudança com a democratização (ou a luta pela) da mídia e das comunicações no Brasil.

 No Brasil, segundo Altamiro Borges, a mídia é controlada por meia dúzia de famílias. É o que o autor chama de “hegemonia paradoxal”, pois ao mesmo tempo a mídia nunca foi tão poderosa, em seu processo de avanço tecnológico, concentração e monopólio, por outro lado, segundo o próprio Miro, nunca a mídia hegemônica sofreu tantos questionamentos da sociedade.


A Ditadura da Mídia utiliza-se do marxismo enquanto arcabouço teórico-metodológico. Envereda nas concepções desenvolvidas por Grasmci a respeito de hegemonia. Torna-se por isso mesmo, um importante instrumento de apoio para a construção de uma comunicação mais democrática em nosso país.


O desafio já exposto no Prefácio da obra é vencer a dificuldade histórica do Brasil em compreender a mídia como um poder e a comunicação como direito. Conforme o próprio Altamiro, a mídia hegemônica se tornou nos últimos anos o “partido do capital”, expressão que o autor toma de empréstimo à Grasmci.


Miro, (se me permite a intimidade, camarada) modestamente defende sua obra não  como fruto da academia, sim (o mais importante) como uma obra de denúncia política frente ao já supracitado paradoxo da mídia hegemônica. Permita-me camarada Miro, citar você para você mesmo: “O Livro A Ditadura da Mídia tem como modesto objetivo contribuir para este debate. (...)  visa desmascarar o nefasto poder da mídia hegemônica e formular propostas para a democratização dos meios de comunicação” (p. 14).


Significativa é a visão de conjuntura do autor ao relacionar este movimento de democratização da mídia com os partidos de esquerda e os movimentos sociais. Miro acrescenta: “Aos poucos, os partidos de esquerda e os movimentos sociais percebem que esta luta estratégica exige o reforço dos veículos alternativos.” (p. 14)


Mas como brilhantemente lembra o próprio Miro, citando Gramsci e o seu famoso Cadernos do cárcere “ (...) velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer. Neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece.


Em outra oportunidade irei discutir um dos capítulos que mais chamou minha atenção no livro: Capítulo IV: De Getúlio a Lula, histórias da manipulação da imprensa." 

terça-feira, 14 de junho de 2011

O poder da educação?



Afinal para que serve a educação? A questão é difícil, mas a minha resposta obtive na prática.
Era mais uma das tardes de calor torrencial na capital do mormaço (expressão eternizada pelo Poeta Márcio Souza para descrever o calor intenso de Manaus.) A maioria dos professores de mau humor, resmungavam tentando explodir o relógio que corria aceleradamente para encerrar o intervalo.


A pedagoga tentando vencer a inercia de alguns e a carranca de muitos exclamou: - gente semana que vem teremos as comemorações pelo dia do estudante, e gostaríamos que vocês indicassem os melhores alunos de suas disciplinas para que eles recebam uma homenagem.


Um dos professores meneou a cabeça e não se conteve: - Homenagem? pelo que? Não fazem mais do que a obrigação deles... - No meu tempo não tínhamos livros, farda, ou merenda (Como se na atualidade todos os alunos tivesse disponíveis estas coisas!!!). Eu continuei com os olhos no livro, tentando me manter vivo, repetindo pra mim mesmo: Eu não sou uma planta, eu não sou uma planta, meus alunos não tem culpa se eu ganho pouco, se o ar condicionado da sala não funciona ou se a lousa caiu!


Rapidamente ao olhar os diários e lembrar entre os 50 a 55 pequenos que se apertam nas turmas escolhi meu pequeno representante (quem sabe um Marc Bloch reencarnado em um corpo franzino na periferia de Manaus). Para meu espanto e até frustração (queria indicar quase uma revelação, dizer, eu educador que sou descobri um diamante que pode ser lapidado, um Neymar das letras por assim dizer).


O aluno que eu indicara fora apontado pela imensa maioria como um destaque, tanto das notas quanto em comportamento, assiduidade, participação. Confesso que fiquei atônico, tentando lembrar da imagem que aquele nome representava. Depois de um tempo lembrei. Pequeno, tímido, olhos atentos, sempre com seu material impecável, quase um pequeno lord. Alguns colegas lembraram esta característica da nossa nova estrela: ele sempre está limpo e assiado! com certeza tem uma família a zelar por ele.


Passam os dias e vem a bendita atividade, mais uma hora cívica chata, onde alunos e professores rezam (mesmo os ateus) para tudo termine rapidamente. Na hora da homenagem, a diretora sorridente anuncia que os professores escolheram o destaque entre os pequeninos e que este aluno iria ganhar uma lembrança. 


Todos alegres (nem todos na verdade) esperam que o pequeno herói salte da multidão e venha buscar o seu prêmio, mas para frustração (inclusive a minha) nosso aluno faltou, justo no dia em que ia ser homenageado. Como diria o Senhor Omar da série Todo Mundo odeia o Cris "Trágico!".


Ao final já na sala dos professores, arrumando minhas coisas comecei a refletir sobre todo o acontecido naquele dia. Nem percebi quando a diretora juntamente com a pedagoga da escola se aproximaram de mim e pediram (quase determinando) que eu as levasse até a casa do aluno destaque daquele ano. Eu como um dos poucos que tinha carro (velho, mas ainda dando no couro) e meio a contra-gosto fui, aliás fomos todos.


Tínhamos apenas um endereço e fomos atrás da casa do nosso pequeno herói. Era perto da escola, mas não nos esqueçamos que estávamos nas profundezas da periferia de Manaus.


Depois de muitas subidas e descidas, ruas esburacadas e quase sem asfalto chegamos a uma grande descida, um ladeirão monstruoso de uma rua sem saída. Descemos e de prontidão fomos procurando a casa do nosso aluno. Ao pararmos na frente de um casebre de madeira, caindo aos pedaços, batemos palmas sendo logo recepcionados por vários pares de olhos pequeninos, uma escadinha de meninos curiosos. Logo atrás uma jovem, de cabelos desgrenhados, meio nervosa veio nos receber. 


A diretora logo disse o motivo de nossa visita. A entrega da medalha e do presente ao nosso melhor aluno naquele ano. Ao perguntarmos o motivo da ausência, aquele jovem magricela nos olhou e na sua sabedoria de infante, pobre disparou: -Ah a professora disse que iam me chamar na quadra e eu fiquei com vergonha.


Com vergonha fiquei eu, por ignorar o mundo a minha volta, por desconhecer por completo a dura rotina dos filhos da classe trabalhadora que se aventuram nas nossas escolas públicas de qualidade duvidosa.


Meu pequeno amigo, este texto provavelmente você não lerá (por não ter computador e internet), mas estas palavras não são apenas em sua homenagem. São para lembrar uma história ao mesmo tempo mais bonita e mais triste que a sua. Estas mal traçadas linhas são para relembrarmos a história de Alcides do Nascimento Lins, que filho de uma catadora de lixo, foi aprovado em 2007, em primeiro lugar para o curso e Biomedicina na UFPE e que foi brutalmente assassinado, por um estúpido, talvez pela ausência de políticas públicas nas áreas de periferia.


A morte deste rapaz, não destruiu a sua história de superação. Para que serve a educação? Ainda não tenho uma resposta pronta. Mas estes dois garotos ilustram muito melhor com ações o que a vã filosofia não consegue explicar facilmente. E como diria Engels: uma grama de ação vale mais do que uma tonelada de teoria. E tenho dito.

sábado, 11 de junho de 2011

Blogs Mídia alternativa e política

Não sou especialista em mídia, muito menos jornalista ou coisa do gênero. Entretanto o reconhecimento dos meios de comunicação como mecanismo facilitador das lutas entre os trabalhadores é histórico. Diversos "blogueiros" atuam como arautos contra o que Altamiro Borges (Miro como é mais conhecido) classifica em seu livro como "ditadura da mídia."
Conheço dois casos estreitos em que a internet serve como veículo de comunicação que aproxima as classes trabalhadoras. O Blog do Miro (http://altamiroborges.blogspot.com/) em sua tentativa de construir um espaço alternativo de discussões de temas relevantes no contexto mais político e de esquerda.
Outro destaque, sob meu ponto de vista é o site do SINTEAM (http://www.sinteam.org.br/) onde o sindicato dos professores cansados do boicote frequente que os veículos de comunicação tradicionais operam contra os sindicatos e entidades classistas resolveu ampliar sua participação na internet e consequentemente diminuir as distâncias geográficas. Atitudes que considero acertadas e até louváveis.
A febre dos blogs de conteúdo político no Amazonas é crescente, se não me falhe a memória (que além de indisciplinada é fraquinha, me perdoe os esquecidos) temos exemplos clássicos: Blog do Holanda (http://www.portaldoholanda.com/);  blog da Floresta (http://www.blogdafloresta.com.br/) assim como tantos outros.
Não nos esqueçamos dos políticos que investem consideravelmente nas chamadas mídias alternativas. O que procuram? reveste-se a internet e consequentemente as redes sociais em um novo formato de mídia? O que diremos dos conteúdos eletrônicos dos portais, jornais e outros sites de notícias?
Para os movimentos sociais e principalmente para a esquerda buscar mecanismos que ampliem os contatos e as discussões das agendas particulares destes é fundamental. Aliás o Manifesto do Partido Comunista já assinala tal perspectiva em 1848! Se não vejamos:
"Os operários triunfam às vezes; mas é um triunfo efêmero. O verdadeiro resultado de suas lutas não é o êxito imediato, mas a união cada vez mais ampla dos trabalhadores. Esta união é facilitada pelo crescimento dos meios de comunicação criados pela grande indústria e que permitem o contato entre operários de localidades, diferentes, Ora, basta esse contato para concentrar as numerosas lutas locais, que têm o mesmo caráter em toda parte, em uma luta nacional, em uma luta de classes. Mas toda luta de classes é uma luta política. E a união que os burgueses da Idade Média levavam séculos a realizar, com seus caminhos vicinais, os proletários modernos realizam em alguns anos por meio das vias férreas." (p. 9)
Este texto surgiu a partir da reflexão sobre o 2º Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas (mais detalhes: http://www.baraodeitarare.org.br/noticias/2%C2%BA-encontro-nacional-de-blogueiros-progressistas) que contará com a participação ativa dos companheiros do Amazonas, em destaque Anderson  Bahia, que estará em um das mesas redondas e também pela passagem do I Encontro Estadual de Ativistas Digitais do Amazonas, que teve por objetivo discutir o papel dos blogs e redes sociais como meios de ampliação das fontes e informação na sociedade.
Então parafraseando o próprio Manifesto: Blogueiros do Mundo, uni-vos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Palocci, o PT e a Dilma: Capim na palheta 2 a revanche.

A mídia noticiou nestes últimos dias dioturnamente a questão envolvendo o aumento magistral do patrimônio do agora ex-ministro. A oposição como diz o jargão popular "caiu em cima" principalmente pelo papel de destaque na articulação do governo que Palocci desempenhava. A queda de Palocci, portanto, tomou ares de crise interna, do PT e do governo Dilma.

Palocci, que já havia caído no primeiro governo Lula, dando início a uma crise sem precedentes que quase poe água no chopp do governo petista, caiu novamente sob forte pressão da oposição. Claro está que aumentar o patrimônio vinte vezes em poucos anos é algo surreal para qualquer cidadão obreiro, porém não para os colegas de colarinho branco que pediram a cabeça do ex-ministro. Aos olhos da lei e dos princípios contábeis Palocci não fez nada de errado (não estou defendo o petista, apenas caindo nas armadilhas jurídicas do princípio presunção da idoneidade do cidadão). Sua empresa não tinha contratos com o setor público e ele declarou toda sua renda, recolhendo os respectivos impostos.

A queda, na verdade a solicitação de afastamento se deu pelo desgaste que esta peça importante do governo Dilma sofreu nestes últimos tempos. Foi escolhida para seu lugar inclusive uma Ministra com um perfil diferenciado (mais próximo de um quadro técnico do que de articulação política como antes ocorria). Podemos esperar uma crise terrível que abalará o governo Dilma?

Decerto a crise que tanto sonham os setores de oposição ao governo não virá. Ficou evidente que o PT abriu mão dos anéis para não perder os dedos. E vou além a base aliada deu forte sinal de unidade no momento de crise. Enterrou de vez a vontade de "surfar na crise" que a oposição demonstrou. Qual a alegação? Com a renúncia, Palocci não possui mais cargo público, logo perde o sentido o desejo de instaurar uma CPI.

No final das contas os setores populares, progressistas que fazem parte do governo (não nos esqueçamos que o governo Dilma não é de esquerda e muito menos de caráter socialista) respiram a esperança de trazer o governo para a construção de uma agenda que atenda os anseios dos movimentos populares que apoiaram Dilma maciçamente em todas as regiões do país. As reformas precisam acontecer, porém os gargalos sociais que afligem nosso país continuam existindo.

Então de uma crise pode surgir algo novo? Nem sempre o novo é positivo, ou bom. Mas os movimentos sociais, a sociedade civil organizada e você cidadão político esclarecido tem o compromisso de acreditar na mudança e apostar suas fichas em uma alternativa de construção de um programa nacional de desenvolvimento para o Brasil. Muitos palocci's virão ainda, são os falsos profetas de que tanto falam o apocalipse. Será? Acredito no governo Dilma e principalmente nos movimentos sociais, para cobrar, fiscalizar e principalmente estar no tabuleiro político de Brasília a despeito dos nosso representantes e dos interesses particulares presentes nas confabulações políticas da atualidade.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Política e eleições.


Recentemente tenho observado pelas chamadas "mídias sociais" uma série de críticas ao início do chamado processo eleitoral.
A maioria acha realmente cansativo ter que assistir a Propaganda eleitoral Gratuita e principalmente vê com descrédito as eleições e a classe política.
Lembremos entretanto que nós enquanto país republicano e democrático temos a responsabilidade de escolher o melhor tanto para nós quanto para os outros. E mais conquistamos tal direito a duras penas após amplo processo de lutas contra os períodos de regime fechado em nosso país (ditadura Vargas e Militar principalmente).
A política tem origem enquanto termo e significado como uma corruptela da palavra PÓLIS. A política surge na Grécia antiga para que os CIDADÃOS resolvessem as querelas da cidade (Pólis em grego).
Naquele momento a democracia era de participação direta (mesmo que a maioria não tivesse direitos, já que mulheres, estrangeiros e escravos não tinham direito a voz e voto).
O espaço para as discussões em Atenas era a Ágora, a praça pública, símbolo do local onde os cidadãos da pólis se encontravam para deliberar acerca dos destinos da Pólis.
Hoje nossa sociedade, apesar de muitos acharem o contrário respira política e tem sua participação no processo democrático colocada de maneira indireta.
É responsabilidade do Povo escolher seus representantes e seu destino (o que alguns socialistas denominam de Auto Determinação dos Povos).
Então meu amigo hoje a noite arrume um tempo entre o jogo da libertadores e o primeiro debate e veja as propostas dos canditatos.
E como diria Júlio César a Pompeu (Alea Jacta Esta) ou em português mais redondo: A sorte está lançada.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Frase para pensar na Fila...

"Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre" [Gandhi]

Enquanto você assiste a confusão a respeito do valor da passagem de ônibus em Manaus vá pensando nesta célebre frase de Gandhi,
Ao ler o edital do novo Concurso da SEMED, para Professores e Pedagogos, grande foi a minha surpresa com o valor dos vencimentos. R$ 929,90 por 20h de trabalho.
Pensava eu que a confusão na Prefeitura era apenas fato momentâneo ou quem sabe de alguns setores e que tal desorganização e trapalhada não chegariam à SEMED.
E de repente após a celeuma em relação a supressão da carga horária de História e Geografia do Amazonas no município, meio na calada da noite muda-se o secretário. Por que? coisas do destino... Já que em muitos aspectos a atual gestão é no mínimo nebulosa.
Lembremos que até pouco tempo atrás nossos colegas da SEMED possuíam remuneração um pouco maior do que a do Estado (que na atualidade paga por 20h pouco mais de R$ 1.000,00). Era grande a expectativa pela realização do concurso público para preenchimento do déficit de educadores (e que verdade seja diga não é privilégio apenas de Manaus).
A Pergunta que fica no ar é: um salário assim é atraente?
Alguns economistas logo se apressarão à defender que o vencimento dos professores tem pouco impacto no resultado final da aprendizagem dos alunos. Alguns falarão inclusive o que alguns calhordas pensam baixinho: Professor já ganha muito bem já que nossa educação vai muito mal.
Então para esses (não só os economistas mas há também quem pense desta maneira) menos de dois salários mínimos é mais do que o suficiente.
Outros, também economistas argumentarão que o salário dos professores tem sim impacto (e sejamos francos não é o único muito menos o mais importante) no processo final da aprendizagem dos nossos alunos. Um exemplo claro pode ser a recente divulgação das notas do ENEM. O Estado investe em média por ano R$ 1.400 reais por aluno enquanto a mensalidade, eu disse a mensalidade da escola melhor colocada no Estado custa R$ 1.000 reais.
Então como poderiamos resolver tal querela?
Podemos realizar o seguinte exercício mental: Comparar o salário proposto no edital da SEMED com os valores dos vencimentos dos Professores, com igual carga horária no setor privado. Certamente poucas escolas pagam no setor privado o mesmo valor. Poderiamos também comparar o salário proposto pelo concurso aos professores e pedagogos com outros postos do serviço público com igual nível de escolaridade. Aí meus amigos até você teria pena da diferença. Ou ao final comparariamos o salário proposto com o professor escolhendo outra função no mercado de trabalho. Mesmo assim quem com nível superior ganha menos de dois salários mínimos?
Comparemos os vencimentos propostos para os professores e os outros cargos de nível superior. Leve vantagem a estes últimos.
Então o que podemos concluir desse longo raciocínio a respeito dos vencimentos propostos pelo atual concurso da SEMED?
É mais um descaso com a Educação dos nossos filhos, mais uma humilhação aos nossos colegas educadores e principalmente a continuidade da mesma política (que política?) de Estado da atual gestão.
Alguns colegas mais céticos dizem que a atual gestão da prefeitura é tal qual um pato: Nada, anda, corre mas no final não faz nada direito.
Então qual a saída no fim do túnel (ou da fila para você estudante que vai colocar créditos na sua carteirinha?) aprendamos com o mestre da Paz: "Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre" [Gandhi]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Amazonas e o ENEM 2009.


No ano de 2009 o Exame Nacional do Ensino Médio avaliou o desempenho de cerca de 36 mil escolas de todo o país. A metodologia adotada na avaliação utiliza-se dos conteúdos chaves do Ensino médio dividido em 4 áreas do conhecimento: Linguagens e seus códigos, Ciências Humanas e suas tecnologias, Ciências da Natureza e Matemática, além de uma redação.
Qual a análise podemos fazer do desempenho do Amazonas no exame nacional?
Temos três das 20 piores do "ranking" nacional em nosso Estado.
Das 20 melhores posições do Estado 16 são escolas particulares, sendo que as escolas consideradas da rede pública (Fundação Nokia e Colégio Militar) adotam processo seletivo de ingresso e este último é considerado da rede federal (junto com o antigo CEFET atual IFAM) que caiu de posição.
Se levarmos em consideração que toda avaliação pode servir de indicativo quantitativo e qualitativo, o ENEM demonstra o que a sociedade já percebeu há anos. As escolas públicas do nosso Estado são deficientes. Isso para dizer o mínimo.
Como professor faço parte deste grande processo que chamamos de educação e me sinto co-responsável pelo fracasso dos nossos alunos da rede pública no exame.
A infra-estrutura de nossas escolas é boa, ampliou-se a quantidade de escolas de tempo integral, mas falta uma ampla revisão tanto do currículo quanto da metodologia utilizadas em nossas escolas, para uma adaptação a esta nova realidade que é o ENEM.
Há defensores e detratores do exame, mas o certo é que ele veio para ficar e serve de indicador ao menos de avanços e retrocessos no nível geral do ensino no país. Logicamente não devemos levar as estatísticas ao "pé da letra" ou Ipsi Letera como diria-se em latim.
Três "atores" do processo educacional deveriam sentar e reavaliar metas e objetivos do ensino no Amazonas:
Professores, pois estes estão na "linha de tiro", com o Estado sem implantação de HTP (o famoso tempo para planejamento de atividades), sem concurso há 7 anos e carga horária dos seus professores com sobrecarga, além da falta de profissionais em determinadas áreas: Química, Física, Matemática por exemplo. Não temos um Plano de Cargos, Carreira e remuneração atraente, nossos salários são infinitamente mais baixos do que outros profissionais graduados e portanto isso gera instabilidade e abandono precoce das carreiras na licenciatura, além da falta do incentivo a reciclagem e formação continuada.
Família, esta afastou-se completamente do processo, pouco presente na maioria dos casos, a comunidade e a família pouco esperam e cobram das escolas públicas e claro, apesar de algumas exceções, muitos pais não prestigiam o desenvolvimento de seus filhos, alguns não conhecem os professores e equipe técnica que trabalham na escola dos seus filhos e isso demonstra que um dos pilares do processo educacional não tem voz ativa pra corrigir descaminhos do ensino. O Ensino deve ser articulado com seus três pilares.
O Estado, último e talvez a pilastra que pode sustentar as demais, tem papel relevante nos resultados pois a ausência de políticas públicas, a não discussão acerca de um currículo que supra as necessidades regionais e nacionais e a falta de compromisso com a melhoria do desempenho geral das escolas públicas demonstra que os investimentos (e não são poucos já que o Estado investe pelo menos 25% de suas verbas em Educação) são meramente alocados como investimentos ou pior ainda gastos governamentais.
Precisamos de um Fórum para a educação no Amazonas, onde Professores, o seu sindicato, a sociedade civil e o Estado dialoguem em cima dos dados do ENEM e possam traçar políticas de médio e longo prazo de melhoria, se não no desempenho do exame, na qualidade do ensino ofertado aos nossos alunos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

"Minha família toda vai votar na Dilma" Réplica à Bia.


Esta foi a resposta que escrevi para a Beatriz Abreu (mais conhecida no movimento estudantil como Bia).

Olá, Bia :-)
Ao contrário de você eu cresci vendo aquele homem barbado com cara de bonachão e que na campanha de 1989 a mídia colocava como o "espectro comunista" que rondava o país. Eu tinha medo do Lula quando era criança. Seja pela voz rouca, pelo defeito físico e pela caricatura do homem comuna de esquerda radical das greves do ABC.
Cresci em um lar onde a maioria é avessa à política, se identificam mais com um programa anarquista do que com a esquerda ou a direta.
Meus tios e tias, além da minha mãe acompanharam com descrédito a primeira eleição do Lula e a ascenção do PT ao governo.
Quando me filiei as fileiras da UJS e do PCdoB nunca ouvi uma palavra de reprovação ou apoio. Somos enquanto família, céticos ou como dizem os católicos "sou igual São Tomé, só acredito vendo".
E a desconfiança foi se dissipando, e mesmo todos aqui em casa detestando o PT (e minha mãe ainda achando que ele é comunista) os avanços no governo Lula foram inegáveis e incontestes.
Hoje posso então concordar com você. Minha família vota na Dilma, não pelo PT ou por simpatia ao Lula. Vota pois compara com a política tucana e sabemos o que é bom.
Então É Dilma para ampliar as conquistas e reparar os equívocos da gestão passada.
Parafraseando o Sarafa "peça mais um voto" e a gente avança.
Em outubro faremos bonito provaremos que somos companheiros (do latim cumpanis, aquele que partilha o pão) elegeremos Eron, Vanessa e Dilma. Pois como diz o camarada Eron "O povo sabe o que é bom".